sexta-feira, 22 de março de 2013

O que buscamos? Crescimento? Prosperidade? Desenvolvimento? Felicidade?


A leitura de um artigo do Elmar Altvater de ontem pra hoje já foi suficiente para querer postar. Na verdade trata-se de escrever sobre uma pergunta que sempre passou pela minha cabeça, em parte tentei falar sobre isso na monografia, mas vejo que ela continua pairando. Na dissertação eu devo tangenciar isso, mas acho que uma busca mais extensiva dentro da Filosofia e da Ciência Econômica sobre o tema ainda se faz necessária....quem sabe na tese?

Bom, por enquanto dá pra pinçar alguns elementos de análise!

Em primeiro lugar, segue o artigo:

Elmar Altvater - "Crecimiento económico y acumulación de capital después de Fukushima"

No artigo, o talvez "nunca antes na história deste país" tão radical Altvater bota neoclássicos e keynesianos no mesmo saco ao dizer que ambos não consideram as leis da termodinâmica em suas análises. Nesse artigo fica patente sua base da teoria de Marx, com referências explícitas e tudo mais, coisa que antes não era tão evidente assim. O autor busca construir um argumento de que o capitalismo assumiu um imperativo de crescimento que desconsidera completamente as "fronteiras planetárias", tanto no lado do input quanto do output ambiental (recursos e degradação). Os economistas esqueceram em suas análises que é impossível crescer indefinidamente (não existe regra de ouro pro crescimento, nos termos de Herman Daly).

Mas na verdade nesse artigo o autor chama a atenção pro fato de que não é necessariamente um problema dos economistas ter esquecido esse tipo de análise, porque na verdade é do próprio sistema capitalista o imperativo do crescimento. A teoria é apenas um reflexo disso. O próprio Marx já nos chamava a atenção pro fato de que o capitalismo só pode existir na medida em que possa se reproduzir. O que o Altvater (e outros autores, como o Georgescu-Roegen por exemplo) dizem é que as condições de reprodução dependem de uma base energética e material que não se reproduz (e isso é uma lei inexorável da Física).

Tentando me arriscar nos termos de Marx, é como se o crescimento passasse também por um fetichismo. Crescer se torna o objetivo do capitalismo, assim como o lucro se torna o objetivo da produção de mercadorias. Mas...e a satisfação das necessidades humanas? Bom, esse parece não ser um objetivo da produção tipicamente capitalista.

Esse raciocínio coloca em xeque um monte de coisas: afinal como é possível pensar em Desenvolvimento das pessoas, satisfação das necessidades (principalmente dos mais pobres), "Prosperidade sem crescimento" nos termos de Tim Jackson, ou mesmo "Felicidade" num sistema cujo objetivo passa a ser o crescimento? Muitos teóricos vão dizer que tudo isso que eu disse é consequência do crescimento. Bom, aí temos um problema: então quais são os fins e quais são os meios? Se utilizarmos um raciocínio à la Amartya Sen, veremos que há uma distorção entre ambos no sistema capitalista, dentro do qual o crescimento passa a ser o fim e não o meio.

Discutir os fins da nossa sociedade passa exatamente pela questão de manter as condições do planeta para o futuro. Falar em tempo na formulação do nosso objetivo social passa também por falar sobre qual o destino do sistema que escolhemos.

Altvater sempre advogou a necessidade de uma revolução energética, na qual os fósseis fossem substituídos pelo pleno uso direto da energia solar. O autor mostra que pensar numa sociedade de crescimento zero (como alguns autores advogam) capaz de propiciar o florescimento das pessoas (algo como geração de bem-estar sem crescimento) implica pensar numa sociedade "pós-capitalista".


Sendo pós-capitalista ou não, pensar essas coisas torna-se cada vez mais necessário, na medida em que os problemas se tornam mais patentes. Além disso a questão ambiental envolve uma incerteza muito grande, afinal não sabemos exatamente o que a natureza nos reserva na medida em que ultrapassamos um certo "limiar" biofísico. Diante disso, usando a sabedoria convencional, espera-se uma postura precaucionária por parte dos indivíduos e das instituições. É isso que tem sido feito? Talvez em alguns lugares, mas não de forma generalizada e com certeza não no nosso país. Isso vai acontecer em escala global quando desgraças (sérias) acontecerem. Mas será que isso é um dado da psicologia humana?

Abrir essa caixa preta será um desafio que pretendo levar adiante este ano. Muitas perguntas que exigem resposta não serão necessariamente respondidas, mas precisam ser pensadas. Aguardo as contribuições de vocês!

sexta-feira, 8 de março de 2013

O dia internacional da mulher e a marcha das vadias

Essa postagem se destina a dois objetivos: fazer uma homenagem às mulheres e expor minha opinião sobre a Marcha das Vadias. Em parte trata-se de uma reflexão sobre a necessária mudança anti-conservadora que o mundo necessita. Essa história do pastor ter sido nomeado Presidente da CDHM me deixou muito preocupado sobre os rumos da sociedade...

Não preciso ficar lembrando ninguém que das formas mais diversas e possíveis que se possa imaginar, as sociedades do globo terrestre (salvo raríssimas exceções) condenaram as mulheres a um papel secundário, submisso, oprimido e passivo. Nós temos experiência da sociedade ocidental, mas é evidente que isso acontece "do lado de lá" também. E por algum motivo hoje uma crescente parcela da população acha que isso não é certo, pelo contrário, é moralmente condenável. A grande batalha é aquela que se estabelece entre essa "nova" visão da mulher na sociedade contra as instituições conservadoras machistas que ainda abrigam em si esta visão da qual falei no início do parágrafo.

Cada vez mais a luta pelo lugar da mulher na sociedade torna-se mais importante, não apenas no sentido prático da coisa (no que tange às manifestações, por exemplo), mas também naquilo que as estatísticas dizem sobre, por exemplo, o crescente espaço da mulher no mercado de trabalho. Claro que não quero ser tão otimista também, ainda tem muito trabalho a ser feito e eu acredito que chegaremos numa situação perfeitamente desejável não apenas quando as mulheres conquistarem seu espaço, mas quando os homens tomarem consciência disso.

A mudança institucional, no entanto, ocorre a passos de tartaruga. Não é fácil alterar a conformação de hábitos, padrões de conduta seculares, totalmente enraizados na sociedade. Existe uma inércia muito grande por parte dessas instituições retrógradas em permanecer. Felizmente que o processo de mudança existe e a velocidade com a qual ele acontece depende muito das atitudes dos indivíduos. São duas forças que atuam historicamente de forma combativa, provavelmente na direção de algo novo, mas que carrega em si a própria luta entre os opostos.

É aí que entre a marcha das Vadias, um movimento que parece ir bem na direção de "jogar na cara da sociedade" esse processo de mudança que está acontecendo mas que ainda precisa de muito feijão pra chegar naquilo que é desejado. As mulheres saem às ruas para... mostrarem que são mulheres e deixarem claro seu desejo de não viver numa sociedade machista! E os homens que apoiam essa causa vão junto pra mostrar que querem uma sociedade em que as mulheres sejam de fato mulheres, e não objetos.

A questão que eu levanto é a seguinte: o nome do movimento é Marcha das Vadias, mas o que significa "vadia" ? alguém que é vadio é alguém que anda sem rumo, não tem ocupação, não faz nada, é um vagabundo, aquele que não gosta de trabalhar ou se empenhar. Claro que o sentido dessa palavra ganhou outras acepções ao longo do tempo, mas o que gostaria de ressaltar é apenas um detalhe:

Mulheres, que nesse dia internacional de vocês, possamos refletir o seguinte: o movimento das mulheres contra as instituições retrógradas deve se pautar exatamente pelo contrário do que essa noção de "vadia" implica: construir movimentos com um norte bem direcionado (e não sem rumo), porque não construir utopias? Elas são as cenouras dos nossos burros, elas nos guiam rumo a alguma coisa, mesmo que nunca cheguemos lá. Vocês, mulheres, não são e não devem ser pessoas sem ocupação, vagabundas que não se empenham! A Marcha é exatamente uma mostra do poder que vocês tem, da capacidade de organização e do empenho rumo a essa mudança! Que nessa acepção do termo, não sejam vadias, sejam mulheres!

Não quero dizer que acho que o movimento tenha que mudar de nome, mas gostaria de sugerir que a busca pela mudança deve se pautar pelo entendimento que as mulheres tem do que elas querem ser na sociedade. O movimento não pode ser a esmo e sem sentido, deve construir a mudança.

A minha homenagem às mulheres é desejar que elas alcancem seus ideais, que possam fazer o que quiser de suas vidas sem laços de dependência com os homens, que possam bater de frente com o ranço da sociedade em que vivemos. Existe um potencial muito grande no movimento das mulheres para lutar contra o conservadorismo que tanto engessa a sociedade. E mais, desejo que os homens também reflitam, todos, sobre essas questões, e apoiem as mulheres em suas causas. Desejo a todas as mulheres do mundo que mais do que nunca, sejam mulheres!

URL da imagem: 

quarta-feira, 6 de março de 2013

E de novo a mídia...

Olha só a mídia de novo aí gente!

...

Não, não é marchinha de carnaval. E não tem nada de divertido. Tem tudo de mórbido e ideológico.

Ontem o Zizek falou muito de ideologia em sua palestra, sempre alertando para o fato de que por mais que tentemos nos desfazer dela, ela está sempre lá, em todos os lugares.

Vamos aos fatos. Primeiro. Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, morre no dia 05/03. Um grande símbolo para o povo latino-americano, um homem cuja gestão gerou polêmicas que se espalharam pelo mundo inteiro. Mas que também gerou mudanças estruturais nesse país e, como disse o Zizek, ele era com certeza "um dos nossos", se referindo aos marxistas. Foi um homem que não fez apenas discursos, provocou também transformações.

Segundo. Chorão, ex-vocalista da banda brasileira Charlie Brown Jr., morre no dia 06/03. Responsável pela criação de um estilo híbrido de punk, hardcore e skate rock, um "poeta que não usa sapato", conquistou uma geração de jovens (eu incluso, na época de adolescente) com suas letras e seu estilo irreverente. Podem dizer o que quiser, mas foi alguém que teve sua importância para o rock nacional.

Vamos lá... essa postagem só funciona se vocês checarem os informativos tupiniquins agora! Em especial o globo.com. Sua página inicial traz um fato curioso! 11 (ONZE) manchetes sobre especulações em torno das supostas causas da morte de Chorão contra 4 (QUATRO) pequenas referências à repercussão da morte de Chávez. Isso sem falar no tamanho das manchetes, que é drasticamente desigual.

Mais uma vez a mídia transforma notícias num espetáculo! Que prato cheio a globo tem com essa morte do Chorão...quantas especulações, polêmicas em torno de sua morte, simulações e recriações que serão realizadas, investigações, homenagens, lembranças de sua pessoa, coluna do Nelson Motta, notícia sobre ele 24h, puro sensacionalismo. Que prato cheio! Que prato cheio pra não ter que falar dessa Venezuela "socialista", desse cara subversivo que morreu ontem e que não faz diferença nenhuma pra elite brasileira! Que mão na roda! Caiu como uma luva!


Não precisa falar muita coisa, o fenômeno é muito evidente. Vou finalizar com uma observação estúpida:
que coisa interessante poder observar isso em tempo real.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

E o que vem a tona com a tragédia de Santa Maria?

Desde o último domingo, quando presenciamos uma das piores tragédias que o Brasil (e o Mundo) já presenciaram, tenho pensado sobre questões relacionadas à este fato. Acredito que isso tenha feito muitas pessoas refletirem, de uma maneira ou de outra. E acredito mais que as pessoas com maior senso crítico tenham feito reflexões mais sensatas sobre a questão. E acredito mais ainda que a maior parte das pessoas tenha reproduzido algum discurso que ficou pululando por aí na mídia. E como a mídia se apropriou deste tema?

A postagem não é sobre a tragédia de Santa Maria. É sobre o modo como a mídia se apropriou da questão e da sua importância na hora de "formar opiniões".

No domingo mesmo a Band convocou o ilustríssimo (sic) José Luiz Datena para fazer a cobertura da notícia. Se alguém tiver sintonizado por mais de 10 minutos neste canal, possivelmente ouviu as expressões "isso é um absurdo", "isso só acontece nesse país", e "eu quero ibagens" umas 37 vezes cada uma. Eu mesmo fiquei um tempo assistindo pra perceber algumas coisas: a cobertura completamente sensacionalista da notícia, enfatizando os erros de condução da boate, associada à imagens fortes e perturbadoras. Em primeiro lugar, um total desrespeito com as pessoas que estavam, de fato, sofrendo diretamente com a tragédia. Mas também, uma forma massiva e repetitiva de criar uma determinada percepção do fato para as pessoas. Esse artigo conseguiu traduzir muito do que eu penso sobre este "cinismo da mídia" deflagrado diante da tragédia recente:

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-cinismo-da-midia/

É bom lembrar que esse é o mesmo cara que associou o crime de fuzilamento de um garoto ao fato do assassino ser ateu. É evidente que nada pode tirar a culpa do indivíduo, mas também é evidente que não existe correlação nenhuma entre os dois fatos, e associá-los é também um crime, no caso, contra a liberdade religiosa.

E antes fosse só uma pessoa ou só um programa. Essa tem sido praticamente a regra na veiculação de notícias trágicas. A transformação da tragédia num espetáculo pra milhões de pessoas assistirem e gerarem audiência.

O maior problema da história é que a forma de veiculação de tragédias e crimes na televisão tem assumido, ela mesma, a forma de uma tragédia, de um crime contra a sociedade. Um crime que passa impune. A impunidade que tanto se clama nessas exibições é, na verdade, conveniente para eles próprios.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O que temos a aprender com os humoristas da atualidade no Brasil

*** DISCLAIMER ***

Essa postagem foi escrita pelo meu inestimável amigo, Lucas Maciel Peixoto. Seu texto e todas as suas opiniões aqui emitidas são de sua inteira responsabilidade, não refletindo, necessariamente, as opiniões do posseiro deste blog. 

Escrita burocrática a parte, apenas para ressaltar que não necessariamente eu concordo com tudo, mas com certeza essa postagem vem preencher a lacuna de um tema sobre o qual com certeza eu não escreveria uma postagem enquanto não tivesse uma opinião concisa formada. O texto do Lucas vem muito bem a calhar para ajudar na formação dessa opinião e esclarecer algumas coisas, trazendo ótimos pontos que eu tenho certeza que fornecem uma excelente contribuição para o debate, espero que gostem (e comentem)! 

*** FIM DO DISCLAIMER ***

Estamos presenciando o aparecimento de um tipo de humorista bastante peculiar, para o qual não sei se existe um nome específico, até porque é definido justamente pela pluralidade das suas capacidades.  Estou falando desses caras que “flutuam” por entre vários tipos de atividade humorística, desde a Stand-up Comedy, passando por outros tipos de veiculação como as plataformas populares da internet (Twitter, YouTube, Facebook, etc.), até programas de TV ou espetáculos de teatro. Na verdade parece que esses caras nunca ficam parados e sempre tem um projeto novo, mantendo sua atividade humorística em movimento. Exemplos que vem à mente (e os que eu conheço mais, acompanho mais, me divertem mais) são Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Oscar Filho, As Olívias (Cristiane Wersom, Marianna Armellini, Renata Augusto e Sheila Friedhofer) e Os Barbixas (Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento e Elidio Sanna e todos os convidados que eles chamam pro espetáculo “Improvável”, incluindo todo mundo que eu mencionei antes… é, eles são uma galerinha). Tem vários outros, claro, mas já deu pra ilustrar.

Antes de mais nada, gosto da qualidade do humor deles. Gosto muito das ideias que eles trazem, das sacadas que saem no improviso ou preparadas de antemão, da perspicácia subjancente ao fator cômico. Mas o que mais se destaca, pra mim, é a liberdade de expressão; a atividade desses humoristas é uma forma de trazer à tona assuntos importantes que talvez passariam despercebidos pela sociedade, e convida para a reflexão, ao menos.  Penso que é importante definir e encaixar essa liberdade dentro da atividade humorística. Eu acho que não são necessários muitos limites sobre “o que pode e o que não pode ser dito”, quando alguém está produzindo e trabalhando com humor. Por mim, os humoristas deviam poder fazer suas piadas sobre qualquer coisa ou qualquer um, utilizando o vocabulário que quisessem, sem serem penalizados por isso. Mas todo mundo já ficou, ou deve ter ouvido falar de alguém que ficou ofendido com alguma piada ou brincadeira. Só que o que começa apenas com um simples “ficar ofendido”, completamente compreensível e próprio da natureza humana, e que qualquer indivíduo saudável tem o bom senso de relevar e prosseguir com a sua vida, pode assumir rapidamente proporções maiores - reclamações, troca pública de ofensas, processos, etc. E é aí que as pessoas precisavam parar e pensar: “é só humor”.

Não que os humoristas façam seu trabalho com perfeição; tem hora que a piada é sem graça e ruim, mesmo. Isso é uma decorrência da natureza do trabalho com o humor. É um trabalho criativo, de produção de material; uma hora vai sair uma brincadeira idiota – ou nem tão idiota assim, mas que incomodou, que “pegou na veia” (ou “enfiou o dedo na ferida”, ou “pisou no calo”, dependendo da prática sadomasoquista de sua preferência). Mas a pessoa que assume esse tipo de comportamento de se sentir exageradamente ofendido é sempre uma entre 2 tipos: (1) - o cara que na verdade não tá ofendido, mas se movimenta pra meter a lenha e tacar processos nos humoristas por causa de fatores mais complexos, relacionados aos seus interesses, como relações de poder e se dá pra ganhar alguma coisa rechaçando o comediante; e (2) - o cara que, realmente, ficou um pouco ofendido inicialmente, mas foi influenciado direta ou indiretamente pelo discurso produzido pelo cara (1) e transformou a ofensa em algo muito maior do que realmente é. Um monte de gente já falou em mais detalhes sobre esse assunto (inclusive os próprios humoristas que já passaram por isso – vocês vão se lembrar da polêmica do Rafinha Bastos com a Wanessa Camargo, mas não é o único exemplo), então não vou repetir o que eles já disseram. O texto mais recente que eu li sobre isso (e que me motivou a escrever este texto) é do Danilo Gentili, olhe aí depois - http://acusacaodehomofobia.blogspot.com.br/ (Caso se dê ao trabalho de ler, não deixe de assistir também aos vídeos! Muito bons.)

Vamos ilustrar a situação com uma breve analogia, usando personagens os quais todos podem minimamente visualizar pra representar as forças envolvidas:

Joãozinho e Pedrinho são colegas de escola. Joãozinho apelidou Pedrinho de “gordinho”, e o chama assim desde sempre. Pedrinho tem uma “margem de aceitação”, definida por diversos fatores internos e externos, que circunscreve os comportamentos que são, para ele, aceitáveis ou não. Dentro desta margem, ele aceita o apelido de Joãozinho porque a) – ele não liga nem um pouco; ou b) – ele fica ofendido, mas não a ponto de cortar relações ou reclamar de Joãozinho, porque o considera um bom amigo de forma geral.

Aparece neste cenário Tiaguinho, um moleque “sanguenozóio” que veio de outra escola e que gosta de ver o pau quebrando. Ao ouvir Joãozinho chamando Pedrinho de gordinho pela primeira vez, ele imediamente diz “Olha do que ele tá te chamando! Vai deixar ele te chamar assim? Não vai fazer nada?”. Isso faz Pedrinho repensar seu comportamento ante o apelido recebido, o que talvez o leve a estreitar sua margem de aceitação; considerando o apelido, a partir daquele momento, como algo intolerável, um atrito é gerado com Joãozinho, e os dois são levados à coordenação da escola.

Intencionalmente ou não, Tiaguinho foi bem-sucedido em manipular a margem de aceitação de Pedrinho, gerando intolerância. Talvez Joãozinho usasse o apelido com a intenção de machucar os sentimentos de Pedrinho, ou talvez ele usasse de forma carinhosa, mas o fato é que os dois conviviam harmoniosamente antes da interferência de Tiaguinho. Na analogia, Joãozinho representa o comediante, Pedrinho representa seu público, e Tiaguinho representa integrantes da sociedade que não fazem parte do público do comediante, mas que se sentem incomodados ou ofendidos com sua liberdade de expressão ou visualizam, ao prejudicarem o humorista, oportunidades de realizar seus interesses pessoais. A coordenação da escola representa a justiça, que está disponível para Pedrinho (o público) caso sinta-se ofendido pelo que Joãozinho fala.

       Tem uma palavra em inglês que na minha percepção descreve perfeitamente o sujeito que fica “ofendidinho” quando é alvo de alguma brincadeira: “butthurt”. Traduzir isso aí, ou pelo menos trazer a ideia pro português, é um certo desafio, mas vamos lá… Literalmente ia ficar algo parecido com “com a bunda machucada” (ô traduçãozinha…). Como a tradução literal muitas vezes (sempre) é insuficiente, e como a palavra é uma gíria, vamos usar o Urban Dictionary. Tá em inglês, olhe aí: http://www.urbandictionary.com/define.php?term=ButtHurt. Vou pegar a definição que eu gostei mais e traduzir: “butthurt - Getting your feelings hurt, being offended or getting all bent out of shape because of something petty or stupid.” Ou seja, “ficar magoado, se sentir ofendido ou excessivamente zangado por causa de algo pequeno ou idiota.” O primeiro vídeo no texto do Danilo Gentili que eu passei acima fala exatamente sobre isso. (De novo: assista! É bom!) Basicamente, o butthurt é o tipo do cara que fica ofendido por pouca coisa e ainda acha que alguém o deve desculpas ou satisfação. Do quê que um cara desse precisa? Disso:


Da forma como eu vejo isso tudo, o fato de receberem reclamações e processos dos ofendidinhos força os humoristas a se posicionarem sobre o assunto, e torna a atividade deles ainda mais verdadeira e louvável. Se antes eles já faziam críticas - bastante incômodas para os seus alvos - de cunho politico, econômico, religioso, etc., agora ainda tem a possibilidade de usar esses casos polêmicos e toda a comoção decorrente deles como combustível pro seu humor, potencializando o alcance da mensagem subjacente às suas piadas – ao mesmo tempo em que, em contrapartida, ficam ainda mais expostos aos ofendidinhos. Isso nos leva a uma outra característica desse tipo de comediante, que é o fato desses caras não estarem nem aí pra opinião pública sobre eles, e ainda fazerem questão até mesmo de se incluírem nas próprias piadas e zoarem sua própria pessoa quando exercitam sua atividade humorística. Veja algumas coisas que o Rafinha Bastos e o Danilo Gentili já falaram, tiradas de gravações de entrevistas e textos:

“Eu tenho sido alvo de diversos processos, pessoas insatisfeitas com as coisas que eu digo, pessoas tristes, até, muitas vezes. Tenho perdido pessoas que me seguem porque não acreditam na honestidade das minhas piadas, porque desconfiam da qualidade do humor que eu faço. Eu saí de Porto Alegre com um objetivo: dar orgulho pros meus pais; eles estão muito orgulhosos de mim. O resto, eu to cagando.”
Rafinha Bastos

“O mais cretino é que são mais ridículos que canalhas [as pessoas que o atacam] pois, querendo posar de defensores do bem, fazem o quê? Vão ocupar-se de ajudar quem precisa? Dedicam seu tempo a um fato relevante dentro da causa que dizem defender? Não. Sabe o que fazem? Ficam vigiando e patrulhando o meu twitter. O meu tu-í-ter. Que, todo mundo sabe, só tem merda (e é disso que eu vivo: falar merda. Nunca escondi de ninguém). Por isso mesmo, por viver de falar merda, nunca me passou pela cabeça ser outra coisa senão o que eu sou: um cuzão.” 
Danilo Gentili

         Tá, os caras podem não estar sendo completamente sinceros com toda essa auto-zoação. Ou podem. Alguém vai dizer que esse tipo de declaração é muito bem pensada da parte dos humoristas, com o objetivo de botar mais lenha na fogueira e atrair mais atenção para o trabalho deles. Pode até ser que seja uma forma de conseguirem mais visibilidade e, consequentemente, mais grana. Mas qual que é o problema de eles ganharem mais grana? Eu sou um professor e fiquei puto (assim como todos vocês) quando a um tempo atrás o sujeito falou que tenho que exercer minha profissão “por amor”, e não pelo meu salário. Eu gosto de ser professor, sim, mas tenho expectativas de que o meu trabalho seja valorizados pela sociedade na forma de realização financeira, assim como qualquer profissional. Da mesma forma, os comediantes fazem seu trabalho (imagino) como forma de realizar suas aspirações e por gostarem do que fazem, e também (tenho certeza) pra ganharem grana! Eu pessoalmente gosto de acreditar que eles estão sendo sinceros. Mas independentemente disso, o que importa aqui, ao meu ver, é a forma como esses caras se posicionam publicamente ao fazer essas declarações. Uma vez que o cara fala, com todas as letras, pra quem quiser ouvir, que está se cagando pra opinião dos outros, ou que, como nunca escondeu, vive de falar merda, ele se torna alguém muito difícil de ser atacado, e fica muito difícil se defender das críticas disparadas por ele. Qualquer tentativa de os atingir perde grande parte do impacto, porque, por assim dizer, eles se colocam publicamente em uma situação em que, relativamente ao contexto desta situação, não tem nada a perder. E a partir daí, todo o material humorístico-crítico criado por eles fica mais valorizado, mais crível e mais forte.

           Só é preciso não se esquecer do que é o humor, em essência; ou seja, rir de alguma coisa. Não é pra parar de ser engraçado. Não é pros caras irem demais pro lado politico da coisa e começarem a pagar de engajadinhos. Mas acho que eles nunca fizeram nem vão começar a fazer isso, então o entretenimento trazido pelo trabalho deles deve continuar garantido pelos próximos tempos. Isso posto, penso que um novo significado tem sido agregado à definição de humor. Além de ser algo que provoca o riso, ele passou a ser uma forma de veiculação de idéias, que é entendida dentro do contexto de uma sociedade com imperfeições, sendo algumas delas a existência de corrupção, de descredibilidade no aparelho político, de inversão de valores, de manipulação de ideias e de informação, tudo isso unido a uma população acomodada e com pouca voz ou força de mudança social. Então esse tipo de humor poderia, quem sabe, ser o que falta pra acordar as pessoas pra algumas coisas que acontecem no país, ou um convite ao menos para uma reflexão sobre esse tipo de coisa. 


Por Lucas Maciel Peixoto

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A grandeza metafísica da música brasileira contemporânea



Alguns vão ver o título dessa postagem e vão lembrar de uma conversa "viajadona" que aconteceu nessa última quarta-feira. Outros vão se perguntar que diabos vão ler logo abaixo. Outros talvez vão simplesmente fechar a janela e ir embora!

A música brasileira, inegavelmente, apresenta uma riqueza sem precedentes. O surgimento de estilos híbridos, únicos e sonoramente agradáveis aos ouvidos de pessoas ao redor do mundo tem suas raízes na música africana, em elementos da música indígena, do jazz, etc. Nesse meio tempo vários grandes gênios apareceram, guiando movimentos musicais especialmente interessantes e criando letras marcantes, ora símbolo de algum protesto, ora simplesmente pra cantar a boemia.

Falo de grandes gênios como Adoniran Barbosa, Chico Buarque e Michel Teló.

Afinal, o que é a "música popular brasileira"? É um estilo musical? é um movimento? é uma categoria historicamente determinada? é um tipo ideal? é uma coisa limpa, uma coisa pura?

Não sei exatamente o que é, mas eu tenho uma certa facilidade em colocar nesse grupo pessoas como Elis Regina e Gilberto Gil, mas já acho mais difícil quando falamos de Gusttavo Lima, João Lucas e Marcelo, entre outros. Isso porque acho que vivemos atualmente um novo momento da música brasileira, um momento de efervescência cultural particular, talvez um ponto fora da reta, como teria sido o momento do festival de 1967 e a emergência da Tropicália. Talvez isso exija uma nova categoria. A história musical está sendo feita agora e nós somos privilegiados de poder assistir e tentar teorizar sobre o que estamos vendo. Afinal, o que é isso?

É impressionante como a criatividade do ser humano pode ser aflorada quando você não estabelece categorias a priori no estudo de alguma coisa. Por exemplo, na música, vários auto didatas criaram composições que se tornaram clássicos, sem saber de antemão muito sobre teoria musical, mas usando isso como uma vantagem criativa. O Eddie Van Halen é um exemplo disso. Outro exemplo é o Bola de Fogo quando compôs o funk da atoladinha. Nosso querido Tom Zé já nos chamou a atenção para a revolução musical que aquela composição representa, ao retornar mais de um milênio atrás, antes do canto gregoriano surgir e dominar a música, aos micro-tons! Veja o que ele diz:


Vejam a riqueza de revolução musical que vivemos!

Ontem refletindo sobre as músicas que estão fazendo sucesso no momento percebemos como os novos gênios da música brasileira possuem faculdades filosóficas extremamente aguçadas! A quantidade de categorias metafísicas que eles criaram é uma coisa de outro mundo. Infelizmente, nós brasileiros ainda não desenvolvemos o suficiente para entender o quão profundo é o que eles estão dizendo, acabamos na maioria das vezes atribuindo a isso apelos sexuais (não que isso não seja profundo). Na verdade é porque ainda não percebemos a multiplicidade de sentidos que isso pode gerar.

Para que as coisas se tornem mais visíveis, vamos por exemplos.


Quando a dupla João Lucas e Marcelo dizem: "Eu quero tchu, eu quero tcha, Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha..." Vejam a quantidade de elementos que podemos extrair disso: primeiro, trata-se da expressão direta na música do telos de uma sociedade, a expressão de uma utopia guiada por um líder que faz as massas repetirem o refrão, todos em busca um ideal! Mas veja que esse ideal é colocado numa categoria essencialmente metafísica! Afinal, o que é tchu, o que é tcha? Tudo isso está no plano das ideias, talvez ainda não desenvolvemos suficiente o nosso raciocínio filosófico para entender de fato o que é essa entidade metafísica! Mas com certeza isso tem relação com o "fim último", algo como aquilo que Aristóteles e depois Hegel tiveram claro em suas análises. Verdade seja dita, essa categoria se expressa em contradições: tchu tcha tcha tchu... que profundidade!

Já foi a época em que as coisas deveriam ser deixadas de forma clara. Voltamos a época das expressões artísticas "proibidas", que ganham um ar de "oculto" muito interessante: nem todo mundo precisar saber o que está sendo dito...é igual o "cálice" do Chico Buarque!

Vejam também quão fabuloso é o refrão de Gusttavo Lima: "e hoje vai rolar o Tchê tcherere tchê tchê, Tcherere tchê tchê, Tcherere tchê tchê, Tchereretchê Tchê, tchê, tchê, Gusttavo Lima e você". Esse refrão está carregado de meta-arte, de altíssimo conteúdo parnasiano! É a arte pela arte, pela simples satisfação de ver como as coisas se combinam: o tchê, o Gusttavo Lima e você! Afinal, como os parnasianos mostravam, a arte pode ter sentido em si mesma, ela se basta! E de novo uma categoria metafísica...não sei o que é, mas vai rolar um tchêrere, etc, que também não se sabe o que é. Altíssimo conteúdo evolutivo nessa letra. Sem contar com as novas categorias literárias, vejam como o Eu lírico aparece de forma incisiva nessa letra, é algo realmente sem precedentes.

Enfim, exemplos não faltam, falta você perceber que estamos vivendo um momento único da música brasileira, uma nova revolução de grandes proporções. Mas ela aparece nas entrelinhas de composições de alto conteúdo filosófico, sobre o qual nada mais fiz do que elocubrações. Acho que o entendimento de fato de tudo isso está além da capacidade de qualquer um de nós, por isso precisamos celebrar os gênios que o Brasil deu lugar!


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Feliz dia do Economista!



Ainda a tempo de dizer alguma coisa sobre o dia do economista!

É comemorado hoje, no dia 13 de Agosto, pelo menos no Brasil até onde eu sei, o dia do Economista! Tá, alguém vai dizer, é só mais uma daquelas famigeradas datas que não significam nada, só pra ter um dia pra dizer que é nosso.

Dias comemorativos, independente da razão pela qual foram criados, podem ter a bela utilidade de nos fazer lembrar de coisas. Sim, o aniversário que você comemora é um ano a mais que passou e talvez uma boa oportunidade para pensar um pouco sobre o que você fez e o que ainda pode fazer. Claro, ninguém precisa de uma data específica pra fazer isso, mas acho que de certa maneira somos guiados por aspectos simbólicos constantemente. Ora, que tal fazer uso dos símbolos para algo positivo?




Hoje não tenho muito a dizer senão que o dia do Economista me fez pensar um pouco sobre o Economista que sou e que foi formado desde 2007 e o Economista que posso ser daqui pra frente. É muito legal perceber que o tal do path dependence é um fenômeno muito visível, ou seja, você segue uma trajetória que depende do que vai sendo construído, e isso não tem um fim pré-definido. Vai acontecendo, evoluindo, enraizando e crescendo de forma dinâmica, meio instável, cheia de altos e baixos.

E você, economista, futuro economista, o que pensa sobre você mesmo?

Vou ser meio socrático, mas acredito que nada se perde quando se questiona sobre si mesmo. É sempre bom se perguntar... o que venho fazendo até então? o que essa formação influenciou no que sou hoje? o que estou fazendo pra contribuir com a ciência? o que posso fazer? como ser economista pode ser útil para a sociedade?

Ninguém tem as respostas pra essas perguntas. E talvez não seja o caso. Mas aproveite a ocasião para se fazer algumas delas e ver o que acontece! Você vai ver que o resultado é doloroso (Sócrates já dizia). Afinal de contas, quem gosta de ser questionado? Quanto mais por si mesmo!

Faz parte.

Faça sua vida ser merecida por você mesmo e pense sobre sua própria existência no mundo. Não dói, não mata, tem alguns efeitos colaterais, é, mas nem tudo na vida é facinho. Que bom que é assim.

PS: Postei o significado do símbolo da Economia. Afinal, somos meio que guiados por símbolos as vezes. Será que somos mesmo guiados por esse aí?